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Twin – Capítulo 6 – Missão Cumprida

Naquela madrugada Cesar levantou cedo. Tinha uma missão a cumprir, o que exigia silêncio e consequentemente nenhum café da manhã. Vanessa já estava habituada a acordar e não encontrar ninguém no apartamento. Sentia-se um pouco solitária naquelas manhãs. Nunca havia sentido a necessidade de alguém como havia com ele, de sua companhia nos cafés da manhã, mas já estava a acostumar-se com a casa vazia.

Antes que ela pensasse em acordar ele já estava em seu carro, numa rua deserta distante, o que impossibilitava qualquer encontro indesejável. Ele discou o número que havia discado da última vez e o som do carro o respondeu:

-Insira o código. – era a mesma voz robótica e inexpressiva de antes. Ele disse o código conforme as instruções de Gabriel e a voz respondeu:
-Código aceito. – O painel do carro acendeu e algumas informações começaram a aparecer. Inicialmente a fotografia de um homem de pele levemente escura. Aparentava ter já certa idade devido às pregas que já se mostravam nas laterais dos olhos e da boca. Possuía algumas manchas na pele do rosto e os olhos tinham seu brilho, apesar da aparência já fatigada. O cabelo era preto, volumoso e liso, típico dos descendentes de indígenas. Quando observou a foto, Cesar sentiu algo que já havia sentido em outras missões. Um sentimento que o fazia pensar duas vezes antes de puxar o gatilho. Feliz ou infelizmente ele fora treinado a não pensar uma segunda vez, havia aprendido a duras penas que aquilo poderia ser fatal. Em poucos segundos memorizou o rosto da foto e a voz continuou a falar:

-Este é o Secretário do Meio Ambiente Anibal José de Melo. Ele estará em um evento de confraternização no Hotel Sunshine Shore – Naquele momento apareceram diversas fotos e plantas do Hotel que rapidamente foram memorizadas por Cesar– Seu objetivo é assassinar o Prefeito de Manaus, Ademir Figueiredo, tornando o Secretário como principal suspeito do crime. Para tal lhe foi entregue uma arma replicada da arma pessoal do Secretário. Toda a inteligência coletada sobre o evento está agora acessível em seu celular. – Ele checou o celular. – Conexão finalizada.

“Matar um importante convidado de um evento cheio de gente importante. São oitenta convidados, três seguranças por convidado, um segurança extra para cada membro da família fora a polícia. Fácil assim.”Cesar abriu o porta luvas e pegou a Beretta replicada. Estava perfeitamente limpa. Ele testou a pistola por no mínimo 10 minutos para ter certeza. Suas duas Taurus também estavam no carro e foram verificadas brevemente. Ao terminar ele retirou o telefone do bolso interno do paletó:

-Gabriel, e a nossa reunião?
-As nove na sala de reunião três.
-Você está com a pauta da reunião?
-Sim. Até – Ambos desligaram ao mesmo tempo. Cesar deu a partida e saiu daquela rua. Com alguns atalhos chegou a um estacionamento subterrâneo. Numa vaga bem distante estava Gabriel e sua moto. Cesar não parou o carro, apenas diminuiu a velocidade e abriu o porta-malas de dentro do carro. Gabriel jogou uma bolsa no porta-malas e fechou –o. Cesar apenas retomou a velocidade e saiu do estacionamento, pedindo desculpas ao porteiro.

Ao ver o hotel, Cesar parou uma rua antes e pegou a bolsa do porta-malas. Havia uma roupa de garçom do hotel, com um crachá de identificação do hotel. Ninguém poderia dizer com certeza completa de que era falso. Cesar vestiu a camisa branca e o colete vinho e colocou as luvas. Colocou a bolsa no ombro e foi até o porta-luvas pegar as armas. O revólver foi para as costas, preso ao cinto, a réplica ficou na bolsa e a pistola ficou onde estava para emergências. Ele também colocou um carregador rápido preso a perna. Com tudo pronto fechou o carro e foi em direção ao Hotel, a pé. Ao chegar próximo ao portão pode verificar que havia alguns seguranças com detectores de metal na entrada. Quando Cesar foi para o beco ao lado do Hotel ele foi surpreendido por Gabriel que estava vestido igual aos seguranças:

-Eles tem detectores de metal. Preciso pular o muro. – Disse Cesar olhando o muro atrás de alguma saliência ou abertura no arame farpado.
-Se aparecer por lá perdido vão desconfiar de você. Vem comigo, tem uma entrada não vigiada nos fundos. –Rapidamente foram até o fim do beco. Não impressionava que a entrada não estivesse vigiada. Alguns blocos de concreto que foram assentados em frente a porta haviam sido recentemente removidos, provavelmente por Gabriel.
-Como você consegue fazer isso sem se sujar? – Perguntou Cesar
-É um dom ser cuidadoso, vamos! – Eles entraram pela porta e enquanto iam em direção à entrada de serviço uma voz os chama por trás:
-Ei vocês! – Era um homem de terno de altura média com um semblante irritado estava atrás deles.
-Calma chefe, o garoto aqui só se perdeu. É o primeiro dia dele. Depois venho falar com você, o garoto está atrasado, vai servir os gringos pessoalmente.
-Não importa, preciso ver seus crachás.
-Aqui estão – Os dois mostraram os crachás falsos. O segurança os olhou rapidamente. – Vão logo e parem de vadiar, o evento logo vai começar!

Sem pensar duas vezes os dois foram pela porta de serviço sem olhar para trás e depois de um curto corredor com um acabamento precário estavam dentro de uma cozinha baixa e espaçosa. O teto era coberto pelo sistema de tubulação e luzes industriais. Quase não se viam as paredes da cozinha devido a quantidade de equipamentos e prateleiras que se distribuíam regularmente, deixando um tortuoso caminho até a saída do outro lado. Passaram pela porta e então por outro corredor semelhante ao anterior, mas este terminava em uma grande porta dupla. Quando a atravessaram já estavam numa área mais bem cuidada do hotel. As paredes eram lisas e tinham um tom róseo desbotado, semelhante ao carpete. O teto era liso e havia uma faixa branca fina que se estendia por todo o corredor e ramificações.

Não havia ninguém nos corredores. As portas nas paredes estavam todas fechadas e o corredor fazia uma curva pouco à frente. Ao fazer a curva o corredor mantinha-se da mesma forma, limpo e vazio, mas no final havia uma grande porta cinzenta feita de aço. Pelos interruptores ao lado imaginava-se que seria um elevador, e pela largura das portas que era destinado a serviço. Os dois andavam apressadamente em direção ao elevador. Entraram e olharam no painel, o elevador ia apenas até o térreo.

-Vamos ter de passar pela bagunça da arrumação do evento. Felizmente está uma bagunça ainda, ninguém vai reparar em mais um garçom e mais um segurança correndo de um lado para outro.

Quando as portas do elevador se abriram, a visão que tinham era emoldurada por duas colunas com uma cor semelhante a da parede do corredor por aonde vieram, mas possuíam marcas que lembravam mármore. Ao sair da porta via-se que as duas colunas faziam parte de uma fileira de outras colunas iguais que sustentavam um mezanino que circundava um grande salão que estava cheio de mesas redondas com toalhas brancas e vermelhas. Os funcionários do hotel iam de um lado para outro com pratos, bandejas, adornos de mesa, cadeiras. Os seguranças corriam de um lado para outro falando em seus pontos eletrônicos, conferindo parâmetros de segurança, nomes em mesas. Em uma extremidade do salão havia um palco montado com duas mesas compridas ao lado de um palanque com um microfone e um símbolo de alguma instituição que deveria estar ganhando algum dinheiro com aquilo tudo. Atrás do palanque havia um imenso painel de vidro, que chegava até o teto e continuava sobre o mesmo, tornando-se uma abóboda. Cesar por um momento achou estranho o tempo estar tão escuro quando olhou pelo painel, não passava das 11, quando se lembrou do sistema de escurecimento automático que fora mencionado no relatório da missão. Na outra extremidade do salão havia 3 portas duplas em madeira escura, que levavam ao Hall de Eventos do Hotel.

Assim que saiu do elevador, Cesar agarrou um carrinho de serviço de quarto que aparentemente havia sido esquecido ali. Colocou a bolsa nas prateleiras de baixo do carrinho, sob a toalha que o cobria e foi até o elevador que levava aos quartos, sabia exatamente o caminho a se fazer. Gabriel foi junto e entraram no elevador. Entraram e verificaram que havia uma câmera de segurança: nada além do esperado. Gabriel pegou um bloco de papel do seu bolso e começou a escrever algo. Repentinamente parou como se tivesse se lembrado de algo, ou ao menos o fingiu muito bem e retirou a folha do bloco. Fingiu procurar algo no chão e olhou para Cesar.

-Poderia jogar isso no lixo para mim? – Gabriel entregou o papel amassado a Cesar, que o colocou no bolso do colete.
-Sim senhor – O elevador soltou um sinal sonoro e a voz gravada disse que estavam no vigésimo terceiro andar. Gabriel saiu e a porta fechou-se. O elevador continuou e parou no vigésimo quinto andar. Cesar saiu do elevador sem olhar para a câmera, no corredor ele retirou o papel do bolso e desamassou-o. Nele havia uma mensagem de Gabriel dizendo que ele iria até o quarto do Secretário e retiraria quatro capsulas do revólver pessoal do Secretário.

Quatro tiros eram mais que suficientes para o serviço ser feito. Um acertaria o Prefeito no pescoço, de raspão na jugular: longe o suficiente para parecer um tiro amador e preciso o suficiente para fazê-lo sangrar até a morte. O segundo tiro seria uma falsa reação de medo do Secretário ao ser supostamente atacado pelo Prefeito e os outros dois seriam para o segurança que entraria no quarto ao ouvir os disparos. O Prefeito não ia a lugar nenhum sem pelo menos um guarda costas. Era de conhecimento de todos que ambos possuíam certa divergência de opiniões e uma argumentação que se torna um embate físico seria inevitável num ambiente privado como aquele andar do Hotel. Não possuía câmeras e era o preferido de figurões políticos e empresários que precisavam de certa privacidade para resolver seus assuntos particulares.

A porta do elevador abriu-se e Cesar saiu para o corredor. Olhou-o atenta e discretamente e quando constatou que não havia nada suspeito abriu a bolsa e pegou a réplica. A luva que usava era idêntica à usada pelos funcionários do hotel, mas era de um material sintético especial que não soltava fibras e não prendia partículas de pólvora expelidas pela arma durante seu uso. Escondeu a réplica de baixo de alguns guardanapos sobre o carrinho e verificou o revólver nas costas. Após tudo, pegou o carrinho e avançou pelo corredor silencioso.

Em missões como essa sempre se lembrava de sua primeira missão, que era a de assassinar um empresário que ajudava na distribuição de armas na região do Mato Grosso. Já não suava como naquela primeira vez. A mão era firme como concreto e seus passos eram silenciosos. Sua respiração era calma e serena, deixando os ouvidos sem distrações para ouvir o ambiente.

Estranhamente o ambiente estava silencioso demais, por mais que fossem paredes com isolamento acústico, ainda sentia algo estranho pairando no ar. Quando virou o corredor que dava para a porta do quarto do Prefeito notou algo que não era esperado: a porta do quarto do Prefeito estava totalmente aberta e, atravessando a soleira, via-se algo preto que, ao chegar mais próximo, Cesar constatou ser uma perna. Ele soltou seu carrinho e então se tornou invisível a ouvidos destreinados. Sacou a arma e avançou até a porta. Inclinou-se e olhou dentro do quarto escuro, não enxergava nada. As janelas estavam fechadas e não entrava nenhuma luz a não ser a do corredor que só revelava o rosto do segurança em seu terno barato. Ao olhar novamente percebeu que o tiro atingiu o meio exato da testa do segurança, trabalho de um profissional.

Cesar ficou cada vez mais apreensivo sobre o que havia acontecido ali, a rivalidade entre ambos era uma fachada para um segredo que ninguém mais sabia, nem suas esposas, que se odiavam sinceramente em função da briga entre os dois. Cesar continuou a caminhar silenciosamente pelo quarto que era tão silencioso quanto o segurança que jazia a porta. Após alguns segundos ouvindo os sons do aposento, decidiu acender a luz. Quando acendeu percebeu que aquela missão seria muito mais complexa do que o que dizia o relatório.

Obrigado aos que aguardaram ansiosamente por este capítulo. Devido a alguns problemas técnicos tive de reescrevê-lo algumas vezes e a falta de tempo me consumiu. Acho que agora a história deu uma engrenada legal e vou conseguir desenvolver uma boa trama. Cya

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1 Response to “Twin – Capítulo 6 – Missão Cumprida”


  1. abril 10, 2010 às 3:38 pm

    Finalmente está dando continuidade /o/
    Não desista não. E já dá pra notar que o texto tá evoluindo bem. Fora que é impossível o leitor se entediar com o desenvolvimento da narrativa >D

    Esperando o próximo :3


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