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jan
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Twin – Capítulo 5 – Cesar

Naquela manhã ela não teve de pular da cama. Ele entrou tão silenciosamente no quarto que nem mesmo um gato teria se incomodado de olhar quem entrava. A cortina deixava apenas uma parcela da luz entrar, deixando o quarto com uma iluminação fraca e de tom alaranjado. A cama ficava de lado para a janela e a pouca luz que entrava formava a delicada silhueta do corpo dela que vestia uma camiseta fina o suficiente para apenas cobrir a pele. Os lençóis estavam à altura da cintura e ela estava deitada de bruços, de costas para a janela e de frente para a porta. Ele ficou alguns segundos observando a poeira brincar no ar acima dela. Muito silenciosamente ele ajoelhou-se na lateral da cama e ficou observando-a dormir. Quase não se ouvia a respiração de ambos, imóveis. Os olhos dele percorriam todas os traços da calma do rosto dela, que estava parcialmente revelado pela luz. Depois de um tempo que ele não saberá nunca quantificar, ela respirou fundo e abriu um olho o suficiente para olhar em volta, algo a fez acordar e ela não sabia dizer.

Quando abriu o olho, primeiramente ela só viu uma mancha a sua frente, que pouco a pouco ficava visível enquanto seus olhos se adaptavam à luz. Quando percebeu que ele estava ali, ela somente conseguiu colocar a mão sobre o rosto e sorrir discretamente:

-Me deixa dormir vai…
-Eu deixo, mas você vai perder a carona e provavelmente vai chegar atrasada – ele riu.
-Ai, dava pra você ser um pouco menos sério? – Ela pegou um travesseiro e jogou sonolentamente na direção dele.
-Já não tenho mais cura. Vamos, o café está pronto! – Ele se levantou. Nessa hora que ela percebeu que ele estava arrumado como na vez anterior que ela o viu saindo de casa.
-Nossa, você realmente acorda cedo. Bem, vou tomar um banho. Que horas são? – Ela levantou-se devagar e ficou apoiada sobre o braço direito enquanto cobria um bocejo com a mão esquerda. Seu cabelo desarrumado cobria metade do rosto, a que estava recostada no travesseiro.
-Cinco e meia. Temos tempo de sobra pra você se arrumar. – Ele olhava para o relógio e quando voltou seus olhos para ela, tentou em vão segurar um riso.
-Vai ficar aí rindo do meu cabelo seu palhaço? – Ela jogou um travesseiro nele, agora com mais vigor que antes.
-Pronto, você já está bem acordada, vá tomar um banho. – Ele foi até o armário e pegou uma toalha. Colocou-a na cama e foi para a cozinha enquanto dizia que precisavam sair as 7 de lá. Quando ela saiu do quarto em direção ao banheiro, com a toalha e roupas de baixo a mão, pôde vê-lo olhando para a janela no fim da cozinha, com seu café com leite frio na mão. A barba estava crescendo por todo o rosto e os cabelos negros socialmente desgrenhados caíam pela lateral do rosto, escondendo seus olhos.

Saíram as sete e dez do apartamento. Desceram até a garagem e entraram no carro. Era uma Mitsubish Lancer Evolution IV preta. Eles entraram no carro e saíram da garagem. O sol ainda estava baixo e muitas nuvens o cobriam, deixando a manhã com uma aparência melancólica. Um ou outro raio de sol conseguia atravessar a densa camada de nuvens e atingir os edifícios mais altos, outros atravessavam as frestas da parede de prédios que ladeava a rua. O carro era silencioso e o banco era macio. Ela ainda estava com sono e mal conseguiu terminar seu café. Acabou dormindo no banco do passageiro virada para ele, que a observava a cada parada, mas com um rosto sério, quase preocupado. Chegaram ao trabalho dela e ela a deixou na porta, bem no horário e no exato momento em que a sua chefe também chegava na empresa e a via descer do carro.

-Hum, agora eu sei porque você estava feliz ontem. Parece que arranjou um namorado. E um belo carro também! – Ela disse enquanto olhava para o carro através dos óculos escuros. – Pra ele te dar carona pra vir trabalhar é porque vocês passaram a noite juntos estou certa?
-Minha vida é minha, estou certa? E meu deus, você só pensa em dinheiro?
-Em carros também – ela riu.
-Okay, vamos trabalhar? – disse ela empurrando sua chefe pelo portão da frente.
-Sim claro, temos muito o que contar hoje para as meninas.

Quando ele virou a esquina, apertou um botão no painel e o carro começou a discar para um número. Chamou apenas uma vez e uma voz calma e séria o atendeu:

-Você está atrasado. – Disse a voz num tom inexpressivo.
-Estou chegando. – Disse num tom de voz semelhante. Desligaram a ligação praticamente ao mesmo tempo. Em menos de 2 minutos chegou a uma rua pouco movimentada onde dificilmente passavam 2 carros. Em ambos os lados haviam pequenos depósitos abandonados com grandes portas de aço que não se abriam a um bom tempo. Apenas uma delas estava aberta, num depósito que nada tinha de diferente dos outros, além da porta aberta. Habilmente entrou com o carro na porta que lentamente fechou-se atrás dele. Algumas luzes fracas se acenderam e la dentro havia uma Yamaha R1 preta com uma figura vestida de preto encostada. Sua pele era levemente caramelada, seu cabelo era cortado como se tivesse saído recentemente da prisão. O rosto quadrado possuía algumas marcas que eram cobertas pela barba a ser feita. Seus olhos eram pequenos e de um azul acinzentado quase nunca percebido por olhos destreinados. Sua boca levava um cigarro pela metade e as roupas eram semelhantes a dele, mas estavam mais amarrotada: Mangas desabotoadas, camisa pendendo para fora da calça, sapatos e mãos semelhantemente sujos e alguns rasgos no paletó. O homem desencostou-se de sua moto, indo calmamente em direção a ele, que saia do carro. O porta malas abriu sozinho enquanto o carro mantinha-se ligado. Quando o homem com o cigarro aproximou-se à distância de um metro, desferiu um soco na direção dele, que desviou ao mesmo tempo que imobilizou o atacante que disse:

-OKAY! Eu já sei que é você Cesar, pode colocar meu braço de volta no lugar! – Cesar o soltou.
-Você precisa deixar de desconfiar de todos. – Ele estendeu a mão.
-Você sabe que não sou eu, é o que o protocolo. – Ele estendeu a mão em resposta e ambos apertaram firmemente as mãos.
-Ah sim, e você segue o protocolo inteiro e não só a parte da desconfiança. – Cesar sorriu
-Ah não, estou bem, não se preocupe comigo. Isso na minha mão não é sangue e eu estou assim porque estava jogando futebol americano de terno. – Ele apagou o cigarro e mostrou as mãos. Agora era possível ver que havia um pouco de sangue nelas.
-Você conseguiu o PenDrive? – Cesar perguntou.
-E eu lá sou de fazer esse tipo de negociação para voltar de mãos vazias? Até parece que não trabalhamos juntos. – Ele pegou outro cigarro e acendeu.
-É o protocolo. – Cesar ficou olhando para o PenDrive, que guardou em seu bolso interno.
-O seu protocolo. – O homem riu.
-Não deixa de ser um protocolo. – disse sem rir. Cesar foi em direção ao porta malas. O outro homem foi junto. Quando chegaram não havia nada lá, não visivelmente. Cesar retirou um canivete de um dos bolsos e começou a destacar a chapa de aço que fica atrás dos bancos traseiros dos carros, que já estava destacada. Dalí ele retirou um envelope dobrado, que entregou ao homem. Este por sua vez o colocou em seu bolso interno, assim como Cesar fez com o PenDrive.
-Guarde isso direito, você sabe o quanto é valioso. – Disse rispidamente.
-O mesmo para o PenDrive. – Ele virou-se e foi em direção a moto.
-Gabriel. Troque de roupa, vão achar que você roubou essa moto.
-Você sabe que a polícia não é problema, mas aquela sua namorada pode te trazer algumas complicações. – Naquele momento Cesar agarrou o braço de Gabriel e ambos ficaram frente a frente.
-Como você sabe sobre ela? – Ele disse por entre os dentes. Sua feição havia mudado assustadoramente e seus olhos ardiam.
-Protocolo meu amigo, só estou seguindo o protocolo. – Gabriel soltou-se – Eu estou falando sério, esse tipo de coisa só atrapalha. – Cesar não respondeu. Apenas entrou no carro e ambos saíram do depósito, rumando para direções separadas.

Algumas ruas depois, Cesar discou um número no painel do carro e quase instantâneamente foi atendido. Um sinal sonoro pôde ser ouvido e ele disse:

-Código três-seis-cinco-A, material recebido, registro de entregador zero-zero-oito-três-sete, Gabriel. – Ouve-se um sinal sonoro e uma voz eletrônica responde.
-Código aceito, entregador identificado. Entregador confirmou entrega ás oito horas e quarenta e dois minutos e trinta e dois segundos. – Outro sinal sonoro.
-Código três-seis-cinco-B, material entregue, registro de receptor zero-zero-oito-três-sete, Gabriel.
-Código aceito, receptor identificado. Aguardando confirmação do Receptor.
-Finalizar conexão!
-Conexão finalizada – A voz parou e Cesar desligou o telefone do carro. Em poucos minutos entrou na garagem de um grande prédio espelhado em meio a diversos outros muito parecidos. Estacionou e subiu até o vigésimo terceiro andar pelo elevador espaçoso. Saiu num corredor de paredes brancas com piso, rodapé e guarnição do elevador em mármore escuro. Virou a direita em direção a uma porta de vidro fosco com uma plaqueta simples com os dizeres Trends Engenharia. Quando ele entrou de um aceno de leve para a secretaria que ficava atrás de um balcão branco logo em frente a porta. Atravessou a sala de recepção simples mas com uma aparência moderna, que possuía uma grande janela de onde podia-se ver os prédios do outro lado da avenida.
Ele entrou por um corredor com algumas portas e saiu em uma sala ampla com várias “ilhas”, com 4 computadores cada, onde trabalhavam diversas pessoas em silêncio. Entrou em outro corredor e entrou na última porta que dava para uma antessala com uma estação de trabalho branca simples. Haviam algumas pastas sobre ela e um computador. Sentada à cadeira estava uma senhora com seus 40 anos, usando Headset e anotando algumas coisas num post-it. A antessala tinha paredes brancas e um carpete acinzentado. Numa parede haviam 2 gaveteiros de pastas suspensas, na parede a esquerda desta estava a porta por onde ele entrou, na parede oposta a porta de entrada ficava a janela atrás da secretária e na quarta parede havia uma divisória de vidro que ia do chão ao teto com uma porta, também de vidro. A outra sala era semelhante, mas a mesa era de um material escuro mas simples, com um computador e alguns poucos papéis. A Janela ficava na mesma parede em que ficava a da antessala e havia apenas um pequeno gaveteiro num canto. Quando ele entrou na antessala, virou-se para a mulher:

-Bom dia Célia! Algum recado para mim? – Tinha um tom de voz alegre e enérgico.
-Bom dia Senhor Fábio! A Fornecedora de cabos disse que vai atrasar a entrega de semana que vem para a DDK e a Stuner. Fora isso tudo está dentro do cronograma. – Disse ela enquanto olhava alguns papéis.
-Ahhh! Já falei pro Juliano mudar o fornecedor de cabos, mas eu tenho certeza de que é de algum familiar dele. Preciso olhar alguns sobrenomes. Obrigado Célia. – Ele entrou na sala de vidro e fechou a porta. Ligou o computador e ficou resolvendo problemas durante o dia todo, que não necessitam ser contados nessa história.

Chegou em casa antes de Vanessa e começou a preparar o Jantar. Ela havia trocado a carona pela preparação do jantar e disse para que ele fosse para casa direto do trabalho. Preparou Frango Xadrez pois sabia que ela não era de comer carnes vermelhas. A campainha tocou e ele foi atender a porta usando avental. Ficou decepcionado com o que encontrou.

-Está preparando o Jantar para sua namorada? – Era Gabriel, estava com o mesmo modelo de terno de antes, mas com roupas novas e tudo estava abotoado e colocado exatamente onde devia estar. Ele entrou no apartamento sem esperar ser convidado, o que não ia acontecer se Cesar pudesse escolher. Ele sabia que se Gabriel estava lá era porque seria algo importante. Cesar tirou o avental e colocou no braço do sofá, não havia trocado de roupa ainda, só havia tirado o paletó do terno. Ficou de frente para Gabriel, de pé:

-E então? – Cesar cruzou os braços.
-O que? Eu só vim conhecer a sua namorada, ver se ela é bonitinha e tals, hehe. – Cesar não alterou sua expressão e nem moveu-se. Se alguém o visse arriscaria a dizer que nem estava respirando. – Okay, a chefia passou mais um trabalho. Você tem de entrar em contato com eles até amanhã para receber as instruções. A senha é o número de registro invertido. Você entregou o recado que lhe dei hoje a tarde?
-Sim, mala direta para a central. Mas você não precisava vir aqui só pra me dizer isso, o que você quer?
-Tem mais instruções da central. – Ele pôs a mão na parte de trás do corpo e rapidamente Cesar identificou o objeto. Era uma Beretta 92FS preta. – Aqui, vai precisar usar isso. – ele estendeu a arma com o cano apontado para si.
-Eu tenho a minha arma, não preciso disso. – Ele olhou para a arma com cara de dúvida.
-Está com o número de série raspado.
-Também tenho uma assim.
-Mas não nesse modelo, nem com essas cápsulas. Ordens da central. – ele balançou a pistola indicando que Cesar a pegasse.
-Entendo. Vamos plantar provas. Por que você não disse antes? – Ele colocou o dedo mindinho por dentro do guardamato da pistola para não deixar digitais e começou a observá-la. – Isso aqui está uma droga hein, se isso travar na minha mão eu faço o que?
-Reze para não travar. – Gabriel foi em direção à porta. – É só isso, nos vemos na data marcada. Bom Jantar.

Quando Gabriel abriu a porta Vanessa estava para colocar a chave na fechadura e confundiu Gabriel com Fábio, que estavam com roupas parecidas:
-Ah, nossa você estava me esperan…ah, desculpe, achei que era…quem é você? – Ela fez cara de dúvida.
-Sou um amigo do seu…amigo. – Gabriel ficou a frente dela, entre ela e Cesar, para que ele pudesse esconder a arma. – Trabalhamos juntos e vim trazer alguns materiais pra ele, já estou de saída. – Antes de sair virou-se para Cesar – Eu falei que aquela mudança no projeto ia trazer problemas. Até!
-Ah, pode deixar, confie em mim! – Ele disse dando o primeiro riso da conversa entre os dois, que por ele seria um soco. Ela fechou a porta e colocou sua bolsa no sofá.
-Hum, que cheiro bom! Está fazendo Frango Chadrez? – ela foi até a cozinha. Ele colocou a camisa por cima da arma que estava nas costas presa ao cinto.
-Eu lembro que você sempre gostou de Frango Chadrez, ou pelo menos prefere carne branca a vermelha e legumes. – Ele disse sorrindo verdadeiramente.
-Nossa que fome! Hoje eu esqueci de levar umas bolachas pro serviço, quase morro a tarde. Bem, vou tomar banho. – Disse indo em direção ao banheiro.
-Tudo bem então, deixei sua toalha pendurada no Box. – Quando ela fechou a porta ele foi direto para o seu escritório. Pegou uma maleta que ficava bem escondida nas prateleiras mais altas e retirou a pistola do cinto. Abriu a maleta. Dentro dela haviam mais uma pistola e um revólver: a pistola era uma Taurus PT58S prateada e o revólver era um Taurus RT 817 com o número de série riscado. Olhou para a pistola e pensou nela e no que acabaria acontecendo com ela. Gabriel estava certo, ter uma pessoa em casa foi algo que ele perdeu quando entrou para essa vida. Ele colocou a Beretta num espaço vazio sobre a espuma da maleta e a guardou de volta onde estava. Ficou mais um tempo parado no escritório pensando. Ela saiu do banho, arrumou-se e eles tiveram uma conversa alegre sobre o dia e foram dormir, ela na cama e ele no sofá. Ao menos ele tentou dormir.

Fim do quinto capítulo

Esse foi especialmente complicado devido a tempo e a diversos itens que os leitores poderiam ou não conhecer. As palavras laranjas são links para imagens daquilo que eu imaginei que ficaria difícil de imaginar para alguns. É só clicar.

Vou indo que já deveria estar na cama e amanhã é segunda!!

Abraços do drk~

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1 Response to “Twin – Capítulo 5 – Cesar”


  1. janeiro 4, 2010 às 8:31 am

    surpreendente/não exatamente o q eu esperava. o.o

    ps.: quero ajuda pra montar o meu ;D


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