30
dez
09

Twin – Capítulo 3

Tomaram café e almoçaram. Como estava atarefado ele não conseguiu preparar um almoço que julgava decente. Ela pensou que talvez fosse o melhor almoço de sua vida. Foram poucas as vezes que almoçara fora e sua mãe quase sempre preparava algo fácil pois nunca fora de cozinhar. Ele estava em seu escritório trabalhando enquanto ela lavava a louça do almoço, tarefa esta que ela conseguiu a muito custo pois ele não queria deixa-la fazer nada.

-Relaxe, deixe que eu cuido da louça, vai deitar um pouco no sofá. – Disse ele enquanto recolhia os pratos após o almoço.
-Não! Eu não sou visita aqui, tenho que fazer algo nessa casa, você nem mesmo está dormindo mais na sua cama! – Disse ela num tom ao mesmo tempo nervoso e preocupado. Havia lembrado de que ele teve de dormir no sofá na última noite ao mesmo tempo que começava a recolher os copos.
-Pare com isso, eu durmo no sofá noite-sim-noite-não. Fora que você nem saberia onde guardar as coisas! E agora, o que você me diz? – Ele estava com aquele sorriso desafiador de sempre, olhando-a de cima com o nariz empinado enquanto segurava os pratos.
-Em 2 minutos eu aprendo a arrumar as coisas na sua casa, e isso não me impede de lavar a louça! – Ela devolveu o sorriso apertando as pálpebras, falando baixinho e com um sorriso malicioso como se estivesse pronta para uma boa briga.
-Tudo bem então! – Ele deixou os pratos sobre a pia. Num instante seu rosto mudou para um sorriso de total satisfação como quem diz “Eu não queria lavar a louça mesmo!”. E ela entendeu a mensagem:
-Palhaço! – deu um empurrão de leve em seu braço e deu um sorriso que tentou em vão esconder. Ele sorriu de leve em uma resposta que não chegou ao destinatário.

Depois que ela terminou a louça ela foi até o quarto arrumar a cama que encontrou arrumada. Ele a arrumou enquanto ela lavava a louça. Quando ela sentou em frente de sua mala para trocar de roupa ela parou e ficou observando-a. Aquilo a lembrava novamente de que aquela não era sua casa, que não era sua vida. Lembrou-se da discussão com a mãe, da ida, de como estava perdida. Ficou preocupada com a situação e começou a ver hipóteses: Via ele gritando com ela, e ela gritando em resposta. Colocava-o no lugar da mãe, ele estava com aquela mesma feição de quando discutiram. A viu saindo da casa dele e depois nada. Não sabia pra onde ir. Lembrou-se então de como ele a recebera de braços abertos, lembrou do abraço dele quando ele entrou no quarto.
Ele não tinha escutado a mala dela abrir. Se distraia fácil e ficou tentando adivinhar o que ela estava fazendo pelo som que fazia, era uma mania que não conseguiu largar desde criança. Adorava adivinhar o que acontecia ao seu redor sem usar a visão, e isso o divertia. Infelizmente isso não o deixava se concentrar muito nas coisas, daí o motivo de carregar o Ipod para todo o lugar que fosse, além de um Mp3 a pilha como reserva.
Mas naquela hora preferiu desconcentrar-se do trabalho. Tinha tempo, e mesmo que não tivesse deixaria pra depois. Entrou no quarto e a viu olhando para a bolsa. Sentou-se ao lado dela na cama e viu que ela estava pensando em outra coisa quando ela se assustou com o colchão balançando com o peso dele.

-Quer conversar? – Ele disse.
-Não não, estou bem, só estou pensando em que roupa por. – Ambos sabiam que era mentira, mas ele preferiu deixar dessa forma e não insistir. Ia deixar que ela falasse naturalmente.
-Bem, você precisa tirar essas roupas da sua bolsa. Vem! Vamos arrumar um espaço pra você no armário.

O Armário ocupava toda uma parede do quarto, o que lhe garantia uns bons 5 metros de comprimento (era um apartamento grande para os padrões). As grandes portas de correr que iam do chão ao teto eram brancas e sem textura, perfeitamente lisas com discretos puxadores na altura do umbigo. Ao abrir revelavam uma série de prateleiras e gavetas e o fundo era um grande espelho que ia do chão ao teto.
Conseguiram espaço, o que não foi difícil já que ele nunca fora de comprar muitas roupas e possuía no máximo 5 ternos e um pouco mais de camisas e a maior parte do armário era cheio de materiais de artesanato e outras tralhas que ele juntara com o tempo. Enquanto retiravam as roupas dela da bolsa ela quebrou o silêncio:

-Eu briguei com a minha mãe…
Ele ficou em silêncio por alguns segundos enquanto olhava para outro lado, pensando – Nossa! Deve ter sido uma briga feia então, para você ter saído de casa naquele horário!
-Sim, eu já não a aguentava mais! Ela estava testando minha paciência a tempos. Eu sempre dizia que iria sair de casa se aquilo continuasse daquele jeito, mas ela sempre achou que eu não teria coragem para fazê-lo, pois aí está! – Ela colocou uma calça dobrada numa pilha com mais força que o necessário na opinião dele. Ele fez silêncio enquanto dobrava uma camiseta. Ela sabia que ele estava pensando em algo e então olhou para ele. Ele viu que foi desmascarado e resolveu perguntar:

-Por que eu? – Não costumava enrolar para perguntar as coisas.
Silêncio – Foi a primeira pessoa que pensei, quando consegui organizar minha cabeça – Ela se lembrou de quando, a muito tempo, os dois conversaram sobre morar juntos. Nunca pensaram que ocorreria de verdade um dia. Ela continuou o que estava fazendo.

Ele se lembrou daquele dia, e dos outros que conversaram sobre aquilo. Lembrou-se da felicidade inconsciente que sentiu quando a viu entrar por sua porta. Lembrou-se depois do que poderia ocorrer se ela convivesse demais com ele. Ele não era mais quem ela convivera no Colegial. Era a mesma pessoa, mas seus hábitos haviam mudado. Ficou então preocupado, angustiado. Eram tantos pensamentos em sua cabeça que esqueceu de continuar a arrumar as roupas dela e ficou imóvel olhando para a parede com um shorts nas mãos. Ela observou-o por um momento e perguntou rindo:

-Tudo bem?

Ele olhou para ela com uma expressão de preocupação. Percebeu que ela havia sentido sua preocupação, mas agradeceu que ela desconhecesse os motivos. Olhou para a bolsa procurando uma desculpa e então disfarçou:

-Olha…uma calcinha de oncinha! – Fez uma cara inexpressiva e então apontou para a calcinha na bolsa, quando ela se virou de volta ele agora estava rindo e olhando pra ela com uma cara de criança travessa.
-Seu desgraçado! – Disse rindo e empurrando-o em direção a porta – Já terminou a parte que você pode me ajudar, agora você pode ir trabalhar anda! Vai!

Ele saiu do quarto aliviado por ela estar rindo, talvez tenha esquecido da preocupação dele.

Ela voltou para o quarto e ficou pensando no que o deixara preocupado.

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