29
dez
09

Twin – Capítulo 2

Ela acordou por volta das 10 horas da manhã com o barulho de algo caindo no chão. Quase como num susto ela se levantou. Pensou ter sonhado com tudo aquilo, olhou para si e estava com uma camiseta que não era sua, mas o cheiro era agradável, assim como a cama, as cobertas e a casa. Lembrou-se que estava na casa dele e agora com a mente limpa ela começava a juntar peças e a pensar à frente: como seria sua vida? Ela estava certa em sair de casa? Deveria voltar? Lembrou-se da situação em que se encontrava antes e sabia que a resposta era não, se ela voltasse seria muito pior. Pensou agora em como seria conviver com outra pessoa, dividir despesas, dividir espaço. Espaço! Só havia uma cama na casa, e iria conviver com um homem ainda por cima. Como conviver com o desleixo? Ele nunca foi exemplo de disciplina e arrumação, pelo menos não na escola. Ela estava totalmente absorta quando alguém bate a porta e tudo simplesmente some de sua mente:

-Você já acordou? – ele sussurrou, quase como se não quisesse ser ouvido.
-Já sim – ela deu uma espreguiçada, agora relaxada e sem nada na cabeça para incomodar.
Uma pausa se fez – Eu te acordei? – Soou quase preocupado em tê-la acordado.
-Não, já estava acordada a algum tempo. Pode entrar.

Ele abriu a porta e ficou em silêncio por um momento. Havia chovido bastante na noite anterior e o céu estava quase sem nuvens, o que deixava o quarto com uma iluminação natural incrível, luz essa que a envolvia bem discretamente, parecendo que ela possuía uma luminescência própria. Estava linda o suficiente para deixá-lo sem fala. Ele piscou umas duas vezes tentando tirar aquele pensamento da cabeça e voltar ao que estava fazendo:

-O café da manhã está na mesa. Eu já tomei, mas se quiser eu a acompanho. – O rosto dele ainda estava impressionado com a cena anterior, imóvel. Ela já não estava mais tão preocupada em viver com um homem como antes.
Ele saiu do quarto e voltou para o escritório. Estava sentado num banquinho, curvado em direção a uma prancheta bem grande na vertical. Havia alguns desenhos colados aleatoriamente, a maioria ininteligíveis a leigos, mas ela nem tinha reparado neles, nem no pequeno pardal que repousava na janela, ou nos sapatos largados pelo chão, nas camisas sobre a cadeira do computador. A compenetração dele era tão profunda que ela nem percebeu que parou à porta para observá-lo. Ele passava a ponta dos dedos vagarosamente pela barba rala que crescia sob o queixo. Parecia ser um trabalho difícil. E era, mas isso não fazia diferença agora. Olhava os papéis mas só enxergava o futuro, ou o que talvez seria dele.
Como viveria com uma mulher? Ainda mais ela, que ele sabia que era exigente e disciplinada, e ele um desleixado. Estava preocupado em mudar sua rotina. Quando se mudou conseguiu finalmente a liberdade de fazer as tarefas de casa no momento em que achava oportuno. Passava mais tempo fora de casa do que nela e poucas vezes trazia amigos, então não era o tipo que limpava a casa todo fim de semana, apesar de que depois de 22 anos morando com sua mãe já não conseguia ver um copo fora do lugar, apenas quando trabalhava ou, de agora em diante, quando pensava nela.

Subitamente ele olhou para a porta, havia se lembrado de algo que havia deixado no fogão, o que não adiantou porque agora os dois trocaram olhares novamente e ele se esqueceu de tudo. Não a havia percebido. Pareciam entender os pensamentos um do outro. Quando ele foi tentar dizer algo sobre leite no fogo ela disfarçou e falou antes:
-No que está trabalhando? – ela agradeceu à prancheta por estar ali, mais tarde.
-Ah – ele respondeu meio confuso. Ficou tanto tempo absorto em seus pensamentos que havia até esquecido no que trabalhava – São algumas plantas, só isso. – Ele olhou para ter certeza, por sorte acertou. – Ah sim, o café está pronto…

Ele a acompanhou até a cozinha. Os armários eram todos brancos, assim como as paredes mas o chão era negro, de Granito Aracruz, assim como os balcões. Estava impecavelmente limpa. A mesa estava amontoada de coisas e estava realmente tentadora. Mesmo ele tendo montado a mesa, vê-la agora lhe deu fome novamente, que dirá a ela que não lembrava da última coisa que comeu. Sem demora sentaram-se a mesa e ele a serviu. Seus pensamentos se voltavam apenas para a comida, o futuro, o presente e o passado já não importavam, não até o fim do café da manhã.

Sentados um de frente para o outro ela olhou para ele com seus olhos negros e profundos. Ele estava com um pedaço de bolo maior que a boca naquela hora e parou subtamente com o olhar dela, com o bolo na boca. Ela riu de leve e ele engoliu o bolo com um gole de seu café com leite frio. Ela olhou novamente para ele e disse, já com um sorriso no rosto:

– Obrigado

O máximo que ela conseguiu em resposta foi um sorriso constrangido dele, ou ao menos foi o que ela entendeu. Ele por sua vez estava agonizando. Estava mentalmente em pânico. Aquilo fora mais fora do planejado do que qualquer coisa pela qual ele já tenha passado.

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